Na placa da biblioteca diz: “Para membros da comunidade, consulta local”. E ele era da comunidade, não bem dita, não estereotipada como pensam, só não estudava ali ou não estudava ali ainda, naquela universidade que lhe abria as portas, dando-lhe a chance de estar perto e ler seus livros favoritos, e descobrir mais e mais deles.
Era bonito. Imagine seu perfil preferido de pessoa. No meu caso seria garoto, mas caso contrário, imagine um homem. Ou melhor, menino. Ele não passava de 17, talvez 18. Não era muito alto, embora eu não chegasse à sua altura. Era magro, não seco. Tinha traços retos, e cabelos bem escuros. Sorriso fácil. Ou talvez não fosse nada disso. Talvez fosse feio, vocês devem saber como é o tal do amor platônico.
Todo o dia, pelo que eu soube, ele vinha à biblioteca e ficava por lá, lendo, compenetrado. Raras vezes parava e rabiscava algo em um bloco. Confesso que o observei uma ou duas vezes, sem lhe dar a devida atenção. Só passei a lhe ter em mente certo dia, furiosa.
A biblioteca passava por algumas reformas que mudaram o lugar das prateleiras e mesas de leitura. Acontece que o meu canto preferido, escondidinho, que eu achava ser o único a conhecer, foi invadido por mais um habitante. O menino da consulta local. Para quem quer que eu contasse a história, jamais acreditavam ser verdade. Ultraje, empáfia! Maravilha! Ele era lindo.
Por vezes me peguei pensando o porquê alguém como ele se dava ao trabalho de ir à noite ler em uma biblioteca. Não demorou nada para que eu fosse tomada pelo sentimento clássico de Platão. Justo. Passei a imaginar diálogos, cenas, ‘ois’ tímidos, e espirros de rinite, estes cada vez mais reais, aliás. Passei a ir todo dia ao local e imaginar os motivos que teriam feito ele não ir (Namorada? Opa, hoje tem jogo. Ah!) Ele sempre voltava. Alívio.
Coragem. Precisava de algo que fizesse jus à tamanha obra literária que li no período platônico da biblioteca. Confesso que foi o tempo que mais li na vida. Por vezes me pegava lendo Sófocles, e no outro, Camilo Mortágua, do Josué Guimarães.
Passei a reparar em tudo. No jeito de andar. Nos olhos. Ele não lia em constância, mas flutuava entre 3 ou 4 livros por vez, e, dias diferentes. Portanto, precisava ter sorte para colocar em prática meu plano mirabolante, digno de um conto, para falar com ele.
O tal plano consistia em pegar um dos livros que ele estivesse lendo e ler com nenhuma tentativa de esconder, para que ele viesse tirar satisfação. Note as falhas nesse ‘plano’. Ele poderia simplesmente pegar um dos outros. Poderia pegar outro exemplar, de uma edição diferente. Ou outro livro qualquer.
Sim, pensei nisso tudo, mas resolvi contar com a sorte. Afinal, que outra forma eu poderia achar, sem ser agressiva, uma intrusa. Ah, os platonismos tem dessas coisas. Analisei os quatro livros que ele lia, escolhi um que tinha apenas uma cópia (“É destino”, pensei). E me pus a ler.
Ele não apareceu naquele dia, quase fazendo parar meu coração de expectativa. Mas veio no dia seguinte. E eu lá com o livro. Acompanhei seus passos e notei a tristeza ao não achar aquele livro na estante. Isso aumentou minha ansiedade. Ele pegou um dos outros livros e veio para o meu canto, sentando numa cadeira perto da parede, fazendo com que eu me sentisse invisível.
Quando eu quase me concentrava por completo em alguma passagem do texto, esquecendo do fracasso que tinha sido o plano, ouvi um sonoro “Hei!”. Levantei os olhos. Ele havia deixado o outro livro de lado e vinha na minha direção. Olhei para todos os lugares possíveis e senti o rosto ruborizar. Timidez não controlada, amigos.
“Eu ia terminar esse livro hoje.”
“Sorte sua”, eu disse, “Ele é ruim.”
“Ruim é você pegar ele no dia que eu preciso. Você poderia ler Cortázar, igual ontem.” (Era anteontem).
Fiquei mais vermelha. Como se desse.
“Escuta, posso pelo menos saber teu nome?”
Ele foi pego de surpresa. O rosto sorridente passou rapidamente para dúvida. Ele refletiu.
“Talvez você tenha notado nomes nos capítulos”, ponderou, “o meu é igual a um deles”.
“Será que eu vou ter a chance de acertar olhando o próximo capítulo?”, e passei a folhear o livro.
Ele pegou o livro da minha mão.
“Quem sabe?” E esboçou um sorriso.
Jaqueline.




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